7 de mai de 2008

O martírio secular da terra

Nenhum pioneiro da ciência suportou ainda as agruras daquele rincão sertanejo, em prazo suficiente para o definir.
(...) Rompendo, porém, a região selvagem, desertus australlis, como a batizou, mal atentou para a terra recamada de uma flora extravagante, silva horrida no seu latim alarmado. Os que o antecederam e sucederam, palmilharam, ferretoados da canícula, as mesmas trilhas rápidas, de quem foge. De sorte que sempre evitado, aquele sertão, até hoje desconhecido, ainda o será por muito tempo. (p. 36)




Vingando um cômoro qualquer, postas em torno as vistas, perturba-as o mesmo cenário desolador: a vegetação agonizante, doente e informe, exausta, num espasmo doloroso...
É a silva aestu aphylla, a silva horrida, de Martius, abrindo no seio iluminado da natureza tropical um vácuo de deserto.
Compreende-se, então, a frase paradoxal de Aug. de Saint-Hilaire: “Há, ali, toda a melancolia dos invernos, com um sol ardente e os ardores do verão!”
A luz crua dos dias longos flameja sobre a terra imóvel e não a anima. (p. 54)